2015: Já acabou, Jéssica?

Ano acabando, é hora de fazer o famoso balanço do ano. Mas será que vale a pena? Esse ano passou como um rolo compressor, pelo menos para mim, trazendo coisas bacanas, coisas muito legais, mas também trouxe um clima de tensão, de disputa, de desapontamento.

Se de um lado conheci pessoas interessantes e consegui trazer algumas dela para perto, se foi um ano de conquistas pessoais e profissionais muito bacanas, esse foi também o ano que mais me desapontei com a própria humanidade. Foram vários os momentos que vivenciei este ano que só fizeram aumentar minha crença na teoria da volta às trevas. Explico: em vários momentos históricos de grande avanço tecnológico da sociedade, as pessoas acabam involuindo para um estágio anterior (cultural, tecnológico e social) no qual os avanços são utilizados ao extremo de forma que passem a ser comuns a tal ponto que não são valorizados e acabam sendo esquecidos.

ancient-greek-medical-instrumentsNo período pré império romano, muitos dos avanços tecnológicos e sociais conseguidos no Egito (medicina, engenharia, cultivo de alimentos)romanroad foram esquecidos pela nova grande onda política e social que se instaurava e se expandia. Esse império, por sua vez, após um período negro, desenvolveu suas próprias tecnologias nas mesmíssimas áreas e que acabaram sendo esquecidas e ignoradas pela nova sociedade europeia que instaura e avanços como as construções ou as ruas de pedra são desfeitas porque a sociedade não reconhecia a utilidade daquelas construções dos “povos antigos” e utilizavam as pedras das casas para construir anteparos para fogueiras enquanto dormiam em casas feitas de madeira e terra…

Neste ano em particular, mais especificamente no Brasil, tivemos um ano repleto de sinais desse caminho. Se pegarmos as mídias as evidências “sambam na nossa cara” (já usando um jargão muito utilizado no ano): Jornais e revistas encerraram suas atividades. Alguns afirmam que isso se deu porque a velocidade da internet estabeleceu um novo parâmetro de atualização que as mídias impressas não conseguem acompanhar, outros dizem que as pessoas preferem a comodidade dos seus aparelhos conectados para se manterem atualizados, eu acredito mesmo é que as pessoas não mais leem para se atualizar. Simples assim!

A televisão por sua vez, prefere o caminho simples de acreditar que uma vez que a população é cada vez mais tacanha, regule-se “por baixo”img9 e todos seremos felizes. Este foi o ano em que tudo se resume a reality shows. BigBrother, disputas culinárias dos mais variados tipos: de confeiteiros, para ver quem é o melhor Chef do país, para ver quem suporta o Chef infernal, quem faz os melhores doces, quem é o melhor Chef mirim, a melhor equipe dos melhores chefs, os melhores churrasqueiros, a disputa de Food Trucks, e por aí vai… teve fazenda, cantores solo, em dupla ou em bandas, lutadores, jogadores de futebol, de pescadores e a lista não acaba. As novelas são piadas que, quando não erram ridiculamente na qualidade básica de suas produções com extintores no Egito, desafiam a lógica de pessoas com mais de 2 neurônios. E o que dizer do jornalismo? Todos os canais apresentam notícias como se fosse a conversa das donas Candinhas na praça de uma cidade do interior. A seleção e importância dos assuntos acompanha o raciocínio geral da TV: Maior escândalo de corrupção da história do Brasil (3 min), Perda do grau de investimento (90 seg), Alta do dólar (1 min), Previsão do tempo para o fila de semana (6 min com direito a link ao vivo).

Paris_-_MarianaMas nem tudo está perdido, temos a internet e as redes sociais, certo? Não sei não… Este foi o ano das discussões acaloradas, mal educadas, e barulhentas sobre coisas com relevância questionável. Se você não é do partido A, é do B! Se não é a favor, é contra! Se não é de esquerda, certamente é de direita! Funcionou assim: a partir de uma manchete e/ou de um lead (porque como eu já disse, não se lê mais nada) a pessoa PRECISA se posicionar. Tem que ter um lado e não importa o lado que você escolher, sempre vai ter um monte de gente para te criticar. Você ficou triste por Paris? E Mariana? Você doou para desabrigados do sul? E os refugiados da Síria? Você usou rosa no Outubro rosa? E o novembro azul? E as relações nas críticas não precisam nem fazer muito sentido: “Você está criticando a ciclovia do prefeito porque é machista opressor!” Hoje, dia 31 a discussão nas redes sociais é se deveria se proibir os fogos da comemoração do final de ano ou não, afinal os Pets sofrem demais com o barulho!

Mas o pior momento do ano para mim, foi quando em sala de aula repleta de jovens de seus 20 anos, durante uma explicação sobre formação de preço onde surgiu a palavra licitação (que eles não sabiam o significado) eu perguntei: “Vocês têm ouvido essa palavra há algum tempo. Não lhes incomoda o fato de ouvir uma palavra e não saber o que ela significa? ” Para o meu desapontamento, a resposta foi um sonoro “não”…

Eu acredito que nós chegamos até aqui por que fomos curiosos, inconformados e obstinados em descobrir o que não sabíamos e assim saber cada vez mais. Acontece que ultimamente tenho sentido que esses 3 fatores humanos estão desaparecendo, infelizmente. A meritocracia, que moveu a humanidade (em boa parte do tempo) e é um dos pilares da definição de igualdade, vale cada vez menos. Temos visto isso, em todas as esferas, no governo, na iniciativa privada, na escola, em casa. Hoje, valorizam-se pseudos gurus que nada mais fazem do que compartilhar posts dos verdadeiros trend seekers, boa parte deles relacionados às causas que defendem e do alto de sua sapiência “compartilhada” definem essas ações como sendo parte do que define o século XXI (ainda que só tenhamos vivido 14% dele).

Espero que 2016 prove que eu estou errado, que essa ignorância e desinteresse seja só parte de uma nova forma de revolta pre/pós adolescente, que a minha visão esteja enviesada pela minha rede de contatos, que essa percepção de que caminhamos a passos largos para o caos seja só o reflexo do momento que atravessamos, de corrupção, de mentiras, de assaltos, de violência e que tudo volte ao seu rumo no qual seremos guiados novamente pela curiosidade, inconformismo e perseverança. Como educador, curioso e inconformado, vou persistir em entender esse movimento e ensinar aos jovens que eu tiver contato a serem também inconformados e persistentes, mas SEMPRE curiosos.

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